sábado, 27 de fevereiro de 2010

Impasses

(...) Basta!

Amo-te, não posso negar. Mas recuso com todas as forças que você me faça prisioneira de sua mente desgovernada, de seus afetos doentios. Às vezes, olho-te enquanto dormes. Ou - não, espere - só escuto o ressonar profundo que vem de você, que vem do quarto, enquanto leio, na sala, o texto derradeiro de nossa própria história. Não compreendo os ditos dessa linguagem, as entrelinhas de seu silêncio masculino e cruel. Cruel! Cruel, sim!

Você me usa o tempo todo. E de forma tão gentil. Acredito na sinceridade cretina dos seus gestos, dos seus destemperos. Você não mente. Ah, lá isso, não! Mentiroso você não é. Nunca foi. Mas sua verdade é também sua grande armadilha. O mel que me atrai para um caminho cada vez mais escuro e tortuoso. Meu corpo lanhado de sangue. Cada vez mais estreito em direção a ti.

"Bem-vinda a mim", você diz. Com a cara lavada de uísque e um sorriso cínico de quem se sabe amado. "Deixa. Deixa ela chorar à vontade. Só eu posso consolá-la. Só EU tenho o que ela quer", declara vitorioso aos amigos de copo e gim.

Em prantos, aguardo de joelhos você voltar. Acendo velas, rezo o terço e imploro a Nossa Senhora em oração que faça de você o meu José. O meu doce e crédulo José. Fugindo comigo para lugares inóspitos e malditos. Assumindo filhos que não são seus. "Dá-me filhos, senão morrerei!"

Lembro da primeira vez que o vi e me enamorei. Não era cínico o seu sorriso. Você me olhou e, entre um sussurro no pescoço de uma sirigaita e outra, me senti a mais desejada das mulheres. A mais amada, a escolhida. Num mar de coxas e seios fartos. E eu. Eu era apenas eu. Diante da promessa de um amor andarilho e repleto de possibilidades que eu jamais um dia ousara ter.

Meu amor.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

É o que é

Existem três tipos de pessoas nesse mundo: as que foram sempre sozinhas e custaram a entender isso; as que sempre foram, mas não se conformam e usam de toda espécie de artimanhas para se sentirem amadas; e as que passaram a ser depois de frustradas tentativas de encontrar seu par.

Creio que me encaixo na primeira descrição.

Sempre fui só. Claro que acreditava que um dia encontraria alguém e, enfim, teria filhinhos... essas coisas. Mas no fundo no fundo sempre fui aquela garota que estava na festa mais como observadora do que participante.

E, com o tempo, isto fez com que eu adquirisse uma paciência extrema em relação às falhas, defeitos, inconcretudes ou impermanências das outras pessoas.

Naturalmente – acredito que nem precisasse dizer – a recíproca nunca foi verdadeira.

Amigos, amantes, companheiros de viagem ou qualquer outro apelido que queira dar aos que passaram por mim ou cruzaram comigo jamais se detiveram aquele tempinho a mais para entender meu motivos. Não eram obrigados, contudo. Ninguém é.

Não sou mulher de provocar falsos mistérios para atrair canalhas otários. Há quem o faça e o faça bem. Mas não integro essa lista. Apesar de invejar - confesso - mulheres que sabem fazer de homens mariposas.

Ou como diz o orixá Exu: “é o que é”.

É isso.