segunda-feira, 18 de abril de 2011

Meu urso de pelúcia

Eu sou amiga de um urso de pelúcia muito meigo e fofo.
Ele é tão fofo, tão fofo que
Só dá vontade mesmo de abraçar e ser sua amiga.
A fisionomia da face é um misto de cão sem dono com vontade de chorar, entende?
Uma eterna expressão de coitadinho que não há outra coisa a fazer senão ser sua grande e melhor amiga.
Mas melhor fica por minha conta, ok, porque...
Nunca se sabe, afinal, o que meu urso pensa.
De qualquer forma, estou sempre ao seu lado. Mesmo quando estamos longe um do outro. Sua imagem me acompanha em pensamento.
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Um dia, tive a curiosidade de abri-lo para ver se, além da pelúcia, havia alguma coisa que remetesse a um coração qualquer. Uma pilha, uma almofadinha... sei lá, qualquer coisa que me trouxesse uma vaga impressão de um dia poder ouvi-lo dizer: “também te amo”.
E assim o fiz: eu o abri. Com todo cuidado e carinho que um amigo urso de pelúcia requer.
Mas, qual. Nem pedaços de pano velho havia, acredita?
Ele era oco. O-co.
Assim, nada, sabe? Nada dentro.

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E fiquei lá eu, diante do meu urso de pelúcia de barriga aberta e uma mesma e imutável expressão de quem precisa ser protegido.
Senti tristeza. Fiquei decepcionada. Depois, um pouco de raiva.
Por último, sensação de abandono.
Peguei agulha e linha e costurei, cui-da-do-sa-men-te, a barriga do meu urso.
A cada agulhada, uma dor em mim.
A cada abertura se fechando, meu afeto elaborado.

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Não é que ficou bonitinho? Três cruzinhas brancas como se fossem botões diferentes, destoando da pelúcia marrom que emoldura seu rosto triste.

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Passado um instante, coloquei-o no sofá e sentei ao seu lado.
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Estou lá até hoje.


Sábado de outono
Tarde de abril
Em 16.04.2011.

4 comentários:

Felipe Braga disse...

Creio que você fez duas boas ações: uma, no texto. outra, na vida. É o poder que uma grande mente criativa tem.

Me fez lembrar de um poema de Drummond. Vou postá-lo abaixo, talvez você se identifique.

Beijos, Val.

Felipe Braga disse...

Os ombros suportam o mundo



Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espétaculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

Igor Rolim disse...

Também quero estar lá... LINDO!

Anônimo disse...

Você me fez chorar... em meio ao caos do trânsito urbano.... para a passageira sentada ao meu lado uma louca anônima...
E foi tão forte que meu coração se fez pequeno.
Saiba você que Já amei um urso, num amor tão elaborado quanto o seu mas nunca me passou pela cabeça efetuar cirurgia tão complexa...
Só agora entendi o porque de minha solidão...

Lindo!!!
Sua fala tocou... ou melhor, atravessou meu coração.