Ela olhou a placa do carro à frente com final 44. Na adolescência, isto significava “ele te ama”. Mas só se estivesse pensando nele naquele exato instante de olhar. Enquanto isso, no rádio, tocava Nando Reis: “Por onde andei, enquanto você me procurava…” E aí, repleta de lembranças, ela chorou. Com a dor no peito dos que choram em silêncio no banco do carona e o motorista nem nota. Há quanto tempo acreditava que isso tudo já estava enterrado em algum canto de sua alma. E de fato estava. Prestes a ressuscitar em pleno trânsito de uma manhã chuvosa de julho. “Será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me faltava…” continua Nando.
Jamais voltaria para ele ainda que implorasse de joelhos. Mas o que fazer com a sensação de sonho que insiste em ficar? A saudade é do sonho. Não dele.
Então lembra de quando ele encostou a cabeça na mesa pedindo silenciosamente um gesto de carinho da parte dela. Ela sabia o que ele queria. Mas sua mão ficou inerte. Tombada entre as pernas porque o sonho não estava mais ali. Tornou-se um aroma, uma espécie de névoa que, de qualquer forma, aprisionara seu impulso de se se lançar na escuridão. Cega, triunfante.
Primeiro passo de sua nova vida em direção a ele, a quem não queria mais. Ninguém mais.
Soube, porém, por terceiros, que ele estava bem. E feliz. Pelo menos é o que aparenta sua fisionomia de idiota em Paris num site de relacionamentos igualmente idiota. Na foto, de sobretudo escuro e cachecol, lembra um boneco de neve, ilhado de gelo por todos os lados, em volta do banco de madeira onde sentou para posar, já pensando no olhar de aprovação dos amigos de doutorado. Um meio sorriso bem conhecido da ex revela seu humor: “consegui”.
Mas só ela sabe os mecanismos de que lançou mão para viajar às custas de bolsa acadêmica. Seduzir a orientadora com ar de rapaz que não se presta a isso, imagina, eu… etc etc. Porque era assim que ele seduzia: instigando o desejo vil de certas mulheres em desvirtuar sujeito tão honesto e digno. Incapaz de trapaças.
A isca, aliás, era arrastada até o último minuto de testemunhar papéis assinados e passagem, vaga ou o que quer que o interessasse irremediavelmente em sua mala ou pasta. “Consegui”, com jeito de monge. Cabisbaixo, humilde.
Continuava olhando atentamente aquela foto e percebendo o passado escrito até ali. Até aquele meio sorriso. O mesmo que sorriu, anos atrás, quando a pediu em namoro.
“E se eu tô de dando linha é pra depois te abandonar”, confirma Ana Carolina, de quem ela não era nem fã. “Adoro essa música”, dizia ele com semblante inofensivo.
Não, é claro, sem antes fazê-la acreditar que jamais a abandonaria, “imagina eu… etc etc”, rapaz que não se presta a isso… Bom rapaz.
“Que sonho pequeno”, disse tempos depois certo homem com quem saíra num affair displicente. A quem contara o ocorrido num tom também displicente. “Era esse o sonho dele?”, desprezou.
Pior. Era o único.
Certa vez, perguntara a ele durante um almoço: “E depois? Depois que conseguir…”
Com olhar distante, vago, não deu resposta. O mesmo olhar que, ainda hoje, perdura naquela foto imbecil.
Feliz.
.....................................................................
Este texto também pode ser lido no site
http://segundaasexta.com.br/?p=2322
em que fui convidada do sábado.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Para Amy
Um silêncio que não antecede nadaUm segundo que não define o tempo
Às quatro para o meio-dia tive fome
E fui até a cozinha procurar algo para comer
Em infinitos cantos do planeta
Pessoas comuns como eu
Faziam e deixavam de fazer coisas banais
Envolvidas apenas em respirar
Em serem elas mesmas
Uma cadela sarnenta passou
Quando abri a janela
E o velho do morro na padaria
Sorveu seu café satisfeito
O sol não impediu um vento frio de ventar
E o céu pincelou de azul as águas da baía
Um homem pescando
Uma mulher dando de mamar
Gritos de crianças brincando de brincar
Jovens entre si
Enclausurados em suas próprias conchas
Um dia simples como os córregos
Um fim de semana como tantos outros
E você, darling, suspensa
Nunca mais sarcasmo
Nunca mais dor
.....................................................
O som que não antecipa a música
O riso que não prevê o fim
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Sim, eu amei você
Quando escolhi amar você, jamais podia supor sua incapacidade de sentir um afeto que fosse. Não por falta de aviso, eu sei. Amigos não faltaram em alertar. Mas uma vez a escolha feita, como adestrar meu instinto de posse?
Eu queria você como não quis ninguém antes.
Tudo soava tão diferente... as músicas, os conceitos... até mesmo o passado.
Você era uma luz nova em minha vida. Ou, melhor. Uma escuridão improvável e sedutora.
E eu te amei, minha doce inspiração.
Eu te amei.
Eu queria você como não quis ninguém antes.
Tudo soava tão diferente... as músicas, os conceitos... até mesmo o passado.
Você era uma luz nova em minha vida. Ou, melhor. Uma escuridão improvável e sedutora.
E eu te amei, minha doce inspiração.
Eu te amei.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Meu urso de pelúcia
Eu sou amiga de um urso de pelúcia muito meigo e fofo.
Ele é tão fofo, tão fofo que
Só dá vontade mesmo de abraçar e ser sua amiga.
A fisionomia da face é um misto de cão sem dono com vontade de chorar, entende?
Uma eterna expressão de coitadinho que não há outra coisa a fazer senão ser sua grande e melhor amiga.
Mas melhor fica por minha conta, ok, porque...
Nunca se sabe, afinal, o que meu urso pensa.
De qualquer forma, estou sempre ao seu lado. Mesmo quando estamos longe um do outro. Sua imagem me acompanha em pensamento.
.......................................................................
Um dia, tive a curiosidade de abri-lo para ver se, além da pelúcia, havia alguma coisa que remetesse a um coração qualquer. Uma pilha, uma almofadinha... sei lá, qualquer coisa que me trouxesse uma vaga impressão de um dia poder ouvi-lo dizer: “também te amo”.
E assim o fiz: eu o abri. Com todo cuidado e carinho que um amigo urso de pelúcia requer.
Mas, qual. Nem pedaços de pano velho havia, acredita?
Ele era oco. O-co.
Assim, nada, sabe? Nada dentro.
.......................................................................
E fiquei lá eu, diante do meu urso de pelúcia de barriga aberta e uma mesma e imutável expressão de quem precisa ser protegido.
Senti tristeza. Fiquei decepcionada. Depois, um pouco de raiva.
Por último, sensação de abandono.
Peguei agulha e linha e costurei, cui-da-do-sa-men-te, a barriga do meu urso.
A cada agulhada, uma dor em mim.
A cada abertura se fechando, meu afeto elaborado.
.......................................................................
Não é que ficou bonitinho? Três cruzinhas brancas como se fossem botões diferentes, destoando da pelúcia marrom que emoldura seu rosto triste.
........................................................................
Passado um instante, coloquei-o no sofá e sentei ao seu lado.
.
.
.
.
.
Estou lá até hoje.
Sábado de outono
Tarde de abril
Em 16.04.2011.
Ele é tão fofo, tão fofo que
Só dá vontade mesmo de abraçar e ser sua amiga.
A fisionomia da face é um misto de cão sem dono com vontade de chorar, entende?
Uma eterna expressão de coitadinho que não há outra coisa a fazer senão ser sua grande e melhor amiga.
Mas melhor fica por minha conta, ok, porque...
Nunca se sabe, afinal, o que meu urso pensa.
De qualquer forma, estou sempre ao seu lado. Mesmo quando estamos longe um do outro. Sua imagem me acompanha em pensamento.
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Um dia, tive a curiosidade de abri-lo para ver se, além da pelúcia, havia alguma coisa que remetesse a um coração qualquer. Uma pilha, uma almofadinha... sei lá, qualquer coisa que me trouxesse uma vaga impressão de um dia poder ouvi-lo dizer: “também te amo”.
E assim o fiz: eu o abri. Com todo cuidado e carinho que um amigo urso de pelúcia requer.
Mas, qual. Nem pedaços de pano velho havia, acredita?
Ele era oco. O-co.
Assim, nada, sabe? Nada dentro.
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E fiquei lá eu, diante do meu urso de pelúcia de barriga aberta e uma mesma e imutável expressão de quem precisa ser protegido.
Senti tristeza. Fiquei decepcionada. Depois, um pouco de raiva.
Por último, sensação de abandono.
Peguei agulha e linha e costurei, cui-da-do-sa-men-te, a barriga do meu urso.
A cada agulhada, uma dor em mim.
A cada abertura se fechando, meu afeto elaborado.
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Não é que ficou bonitinho? Três cruzinhas brancas como se fossem botões diferentes, destoando da pelúcia marrom que emoldura seu rosto triste.
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Passado um instante, coloquei-o no sofá e sentei ao seu lado.
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Estou lá até hoje.
Sábado de outono
Tarde de abril
Em 16.04.2011.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
O tempo de sonhar passou
O tempo de sonhar já passou. E, se alguém perguntasse agora o que eu mais gostaria de sentir em meio aos dias e meses de um cotidiano aflito, responderia de tacada: paixão. Por um segundo ao menos. Contrariando a sabedoria poética de Cora Coralina, que dizia: “a melhor fase da mulher é quando ela não depende mais afetivamente do homem.”
Mas que saudade, às vezes. Saudade de quando esperá-lo agendava o meu dia e minhas tarefas unicamente para o ato de... esperá-lo. Saudade de quando sua chegada apagava toda e qualquer pequena dúvida ou desentendimento. Quando minha vida se resumia magistralmente na sua simples e imperiosa chegada.
E, no entanto, sei que nada disso pesa para o maior ato de amor que um ser humano pode se dar:
esquecer.
Por misericórdia, esquecer. Por respeito a si próprio, esquecer. Por compaixão e nobreza: esquecer.
Não existe recomeço para uma história sem fim, meu amor.O que seríamos nós, afinal, depois de tudo acabado? Você, um Dom Juan fraterno e eu uma Penélope sem tear?
Vá saber.
Mas que saudade, às vezes. Saudade de quando esperá-lo agendava o meu dia e minhas tarefas unicamente para o ato de... esperá-lo. Saudade de quando sua chegada apagava toda e qualquer pequena dúvida ou desentendimento. Quando minha vida se resumia magistralmente na sua simples e imperiosa chegada.
E, no entanto, sei que nada disso pesa para o maior ato de amor que um ser humano pode se dar:
esquecer.
Por misericórdia, esquecer. Por respeito a si próprio, esquecer. Por compaixão e nobreza: esquecer.
Não existe recomeço para uma história sem fim, meu amor.O que seríamos nós, afinal, depois de tudo acabado? Você, um Dom Juan fraterno e eu uma Penélope sem tear?
Vá saber.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Sonho juvenil
Sim, estou confusa. E já não faz pouco tempo. Ou, talvez, esteja apenas resistindo aos meus desejos por puro medo ou despreparo físico. Físico, sim! Porque tem horas que amar dói no corpo. Mais do que na alma. Porque o espírito é forte. Mas a carne é fraca. Ora, se não.
Quando menina, quantas vezes imaginei o meu homem a cortar lenha enquanto eu, às voltas com o fogão, vivendo uma vida mansa, mãos na cintura, vento no rosto, a olhar o céu. Uma casa rústica, galinhas cacarejando, gatos a miar. Cada coisa no seu lugar. Homem sendo homem. Mulher sendo mulher.
Meu homem chegando por trás, suado, em busca de água, dando uma leve palmada nos meus flancos e dizendo: “e aí, mulher, tá pronto esse rango?” Risadas, gracejos.
“Tira a mão da panela!” Mais risadas, mais gracejos. Cachorro abanando o rabo para nós. Querendo rir junto. Tudo existindo na mais perfeita ordem. Sim, um sonho rural.
Um sonho.
Mas eu me tornei uma mulher urbana. Com ambições, carreira, às voltas com homens indecisos de sua masculinidade. Assustados com a vida. Tanto quanto eu.
E então conheci você. Tão certo de suas loucuras. Tão afirmativo em suas fraquezas. Tão másculo e frágil ao mesmo tempo. Inteligente, descaralhado, lúcido, louco! Não, não era o homem da lenha. Mas me fez me sentir tão mulher como no meu sonho juvenil.
E agora... nós. Às voltas com nós mesmos.
Será isso o fim?
Quando menina, quantas vezes imaginei o meu homem a cortar lenha enquanto eu, às voltas com o fogão, vivendo uma vida mansa, mãos na cintura, vento no rosto, a olhar o céu. Uma casa rústica, galinhas cacarejando, gatos a miar. Cada coisa no seu lugar. Homem sendo homem. Mulher sendo mulher.
Meu homem chegando por trás, suado, em busca de água, dando uma leve palmada nos meus flancos e dizendo: “e aí, mulher, tá pronto esse rango?” Risadas, gracejos.
“Tira a mão da panela!” Mais risadas, mais gracejos. Cachorro abanando o rabo para nós. Querendo rir junto. Tudo existindo na mais perfeita ordem. Sim, um sonho rural.
Um sonho.
Mas eu me tornei uma mulher urbana. Com ambições, carreira, às voltas com homens indecisos de sua masculinidade. Assustados com a vida. Tanto quanto eu.
E então conheci você. Tão certo de suas loucuras. Tão afirmativo em suas fraquezas. Tão másculo e frágil ao mesmo tempo. Inteligente, descaralhado, lúcido, louco! Não, não era o homem da lenha. Mas me fez me sentir tão mulher como no meu sonho juvenil.
E agora... nós. Às voltas com nós mesmos.
Será isso o fim?
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